Caminhos abertos

Adolescentes do socioeducativo encontram a cultura

Histórias

No palco do Teatro Carlos Câmara, em Fortaleza, Lorena*, de 16 anos, pega o microfone. Apresenta convidados, declama poesias e conduz uma batalha de rimas diante de adolescentes de diferentes unidades socioeducativas, ela que também cumpre medida.

“Isso aqui é uma oportunidade que abre inúmeras portas para nós do socioeducativo”

Lorena*, adolescente em cumprimento de medida socioeducativa no Ceará

É por essas portas que passa o Caminhos Literários no Socioeducativo: pelo direito à cultura, iniciativa realizada pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), no âmbito do programa Fazendo Justiça, em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).  

Criado em 2022 para fomentar o acesso à leitura na socioeducação, o evento se expandiu. Hoje, promove diferentes formas de expressão cultural - música, dança, teatro, poesia – com o protagonismo dos adolescentes, que não apenas têm a oportunidade de ouvir e falar com artistas convidados, mas também de produzir sua própria arte. Na primeira edição, cerca de 60 unidades socioeducativas acompanharam a programação. Em 2026, esse número subiu para mais de 100 de todos os estados do Brasil.  

Quatro dias, muitos caminhos 

A cada edição do Caminhos Literários, um tema orienta os quatro dias de programação. O primeiro é aberto ao público e transmitido pelo canal do CNJ no YouTube. Nas unidades participantes, adolescentes acompanham as conversas com artistas, profissionais da cultura, gestores públicos e especialistas e enviam perguntas para quem está do outro lado da tela. Tudo acontece com o apoio e o engajamento da direção, dos servidores e agentes socioeducativos que trabalham nas unidades e fornecem a infraestrutura – telão, projetor e uma conexão que permita a transmissão do evento – para que a troca aconteça. 

Adolescentes acompanham a programação na Unidade de Internação Brazlândia, no DF | Foto: Rômulo Serpa, Agência CNJ

Nesses encontros já estiveram nomes como o pensador quilombola Nego Bispo, a atriz, poeta e escritora Elisa Lucinda, o escritor Jeferson Tenório, o rapper e escritor Rashid e Edi Rock, dos Racionais MC’s. Os temas acompanham as linguagens trabalhadas naquele ano, mas as conversas passam também por identidade, território, racismo, direitos, criação e projetos de futuro. 

“Quando entrei aqui, não sabia que tinha interesse pelos livros e pelas formas de expressão que eles podem abrir”

Luana*, adolescente em cumprimento de medida socioeducativa na Unidade de Internação Feminina de Cariacica, no Espírito Santo

No segundo dia, a programação sai da tela. No Caminhos pelo Território, as próprias unidades definem e inscrevem as atividades culturais que vão realizar, sempre em diálogo com o tema daquela edição. Pode ser um sarau, uma oficina, uma exposição, uma sessão de cinema, uma batalha de rimas ou uma roda de conversa.
 
Sempre que possível, há um incentivo para que parte dessas ações aconteça fora das unidades. Museus, teatros, cinemas, bibliotecas, universidades e centros culturais recebem os adolescentes, muitas vezes em seu primeiro contato com esses espaços. A articulação busca também valorizar artistas, coletivos e produtores locais, aproximando os participantes da produção cultural do lugar onde vivem. 

Adolescente acompanha a programação no Teatro Carlos Câmara, em Fortaleza | Foto: Lucas Moura, TJCE

Os dois últimos dias têm outra dinâmica. A programação é fechada às unidades participantes e começa com uma conversa ou oficina ligada ao tema da edição. Depois vem a Mostra Cultural do Socioeducativo, quando adolescentes de diferentes estados apresentam uns aos outros o que produzem: músicas, danças, podcasts, vídeos, pinturas, poemas, fotografias e outros trabalhos desenvolvidos nas unidades.
 
É também onde o aprender e o fazer se encontram. Os adolescentes costumam pedir menos palestra e mais mão na massa. Em 2024, apresentações de ilustradores profissionais despertaram nos jovens uma sequência de perguntas e pedidos por oficinas de desenho nas unidades.

“Quando eu estou com raiva, eu desenho. Quando eu estou alegre, eu desenho. A arte me ajuda a passar por tudo isso”

Raissa*, que acompanhava a programação no Distrito Federal.

Na edição seguinte, o desenho ganhou uma atividade prática com o animador e ilustrador Iásio Neris, que mostrou como um personagem ganha movimento e apresentou etapas do trabalho de animação. Em outra edição, o grafite ganhou protagonismo, com exercícios de letrismo e criação. “Eu sempre gostei bastante do grafite”, contou Luana*, adolescente em cumprimento de medida socioeducativa em São Paulo. “Aqui dentro, aperfeiçoei bastante as minhas técnicas”. 

Adolescente acompanha a oficina de grafite na Casa Chiquinha Gonzaga, em SP

Já a Mostra Cultural faz os trabalhos produzidos pelos adolescentes circularem entre as unidades. Adolescentes de diferentes regiões do país acompanham pela tela apresentações de dança, números musicais leitura de poesia e vídeos feitos por quem está longe fisicamente, mas cumprindo medida socioeducativa da mesma forma. Cada trabalho mostrado empolga os jovens do outro lado, que respondem com aplausos e gritos de incentivo. “Vendo as pessoas de outros estados a gente se inspira”, resumiu um adolescente do Centro Socioeducativo Canindezinho, no Ceará. 
 
Esse diálogo continua depois que a transmissão termina. Ao final de cada edição, os adolescentes e profissionais das unidades avaliam a experiência, apontam o que funcionou, o que faltou e quais linguagens ou atividades gostariam de explorar no próximo Caminhos. O evento, assim, não é só feito para adolescentes. É construído a partir das demandas que eles trazem.
 
Do outro lado da câmera 
 

A equipe de Comunicação do programa Fazendo Justiça, que acompanha o evento desde a primeira edição, enxergou um potencial a mais a partir do que estava sendo produzido ali. Se os adolescentes já escreviam, cantavam, desenhavam e apresentavam seus trabalhos no Caminhos com tanta desenvoltura, por que a cobertura do evento continuava sendo feita a partir de um olhar de fora? Nasceram, então, em 2025, as oficinas de comunicação e os Repórteres do Socioeducativo.  

Naquele ano, 15 adolescentes de cinco unidades de todas as regiões do país participaram de uma formação antes do evento. Aprenderam a preparar uma entrevista, pesquisar antes de perguntar, organizar as informações de uma reportagem, fotografar, gravar e editar. Também conversaram sobre ética, desinformação, privacidade e os cuidados necessários ao comunicar sobre outras pessoas. 

Adolescentes realizam entrevista durante cobertura do evento no AM

Depois veio a parte mais importante: usar tudo isso de verdade. Durante o Caminhos, os adolescentes entrevistaram artistas e convidados, escolheram imagens, produziram vídeos, fotografias e textos. Decidiram o que, para eles, merecia ser registrado. “Como você começou a cantar rap?”, perguntou um deles. “O que te inspira no seu trabalho com os livros?”, quis saber outra participante.

A experiência revelou aprendizados que esses jovens podem levar para a vida. Em Luziânia (GO), a equipe socioeducativa que acompanhou as atividades destacou que os adolescentes perceberam “a importância da pesquisa e roteiro antes de partir para a entrevista”. Em Caicó (RN), enquadramento de câmera, gravação e edição foram experiências novas para muitos ali. 

No ano seguinte, a proposta foi repetida com outras cinco unidades, novamente uma por região. O resultado, mais uma vez, surpreendeu. No Paraná, um adolescente transformou a cobertura da Mostra Cultural em uma página de jornal. Em outras unidades, surgiram vídeos, entrevistas e fotografias.

A lógica era justamente essa: não entregar um modelo pronto, mas oferecer ferramentas para que os adolescentes fizessem escolhas. A comunicação, nesse caso, deixou de ser apenas a forma de narrar o que acontecia no evento. Tornou-se também uma experiência de participação, escuta e construção de sentido. 

Quem tantas vezes aparece nas notícias apenas como personagem passou a ocupar o lugar de quem produz a narrativa: segura a câmera, faz a pergunta, escolhe o enquadramento e decide qual história merece ser contada. Mais do que registrar o Caminhos Literários, os adolescentes ajudaram a construir sua memória, reafirmando que o protagonismo não está apenas nos temas debatidos, mas também em quem tem a oportunidade de contar essas histórias. 

 
*Nomes de adolescentes foram alterados para preservar suas identidades.